O Abner. Meu irmão. Meu ídolo. E o ponto de partida de tudo.
Numa noite de sábado, ele e os amigos jogavam num console antigo. Eu era moleque, estava sob a responsabilidade dele, sem entender nada daquele barulho todo. Quando fui buscar uma bolacha na cozinha, ouço alto e em bom tom: "Olha o fio!" Quase acabei com a resenha inteira levando o controle junto comigo. Por sorte — ou medo de levar bronca — desviei. Peguei minha bolacha e fiquei ali, olhando tudo: o jogo, os controles, e o Abner vidrado na tela. Desde então, quis fazer parte daquele mundo.
Ele me ensinou boa parte do que eu sei sobre esse universo. Mais do que os jogos em si, me fez entender o motivo daquela concentração toda, daquela euforia. E assim, aquilo foi se tornando parte da minha vida — com amigos, na rua, em casa de primo.
Até 2013, quando tudo mudou. Minha família se mudou de cidade. Sem amigos por perto, sem os consoles que ficaram para trás. Sobrou uma bicicleta que o Abner tinha me dado de presente. Eu pedalava imaginando outra coisa, em outro lugar. Até o dia em que fui buscá-la e ela não estava mais lá. Roubaram. Fui ao chão.
Um tempo depois, veio uma casa nova, um bairro novo, e meu pai me deu um console só meu. Foi a melhor sensação da minha vida. Nas visitas à cidade antiga, eu mostrava minha evolução pro Abner, ele me zoava, me chamava de cabeção, e a gente se divertia muito. Construir esse repertório ao lado dele tinha virado rotina.
Até que, num sábado qualquer, veio uma ligação. Meu mundo acabou ali. O cara que me mostrou aquele universo todo simplesmente não estava mais aqui. As memórias que vieram depois sumiram. Eu imagino o porquê.
A partir daí, aquilo virou válvula de escape. Troquei de console pra me sentir mais perto dele — até voltar de um feriado em família e encontrar a casa arrombada, o console sumido. Tinham roubado a minha forma de me aproximar do Abner. Chorei muito.
O tempo passou, a vida adulta chegou. Quando arrumei meu primeiro trabalho, decidi realizar um sonho antigo e comprei um console novo, minimalista, branco. Joguei muito — com minha namorada, com meus sobrinhos. Até o controle parar de funcionar. Ficou guardado por quase um ano.
Quando a vontade voltou com força, fui atrás, pesquisei, e consegui fazer funcionar. Com um porém: só com fio. Do mesmo jeito que naquela resenha de sábado, anos atrás.
Hoje, quando meus sobrinhos jogam aqui em casa, eu sempre tenho a honra de gritar "Olha o fio!" — com o coração cheio.